APAOMacário Santiago Kastner (1908-1992)

Macário Santiago Kastner nasceu em Londres a 15 de Outubro de 1908.

Iniciou os seus estudos musicais nesta cidade, vindo posteriormente a prossegui-los em Amesterdão sob a direcção da professora Maria van den Ebbenhorst.

Mais tarde, em Leipzig, estudou piano com Hans Belz, cravo com Günther Ramin, teoria musical com Friedrich Högner, musicologia com Hans Prüfer e construção de instrumentos de tecla na casa Julius Feurich.

Estudou ainda cravo em Berlim, com Gertrud Wertheim.

Em 1929 estableceu-se em Barcelona, onde se especializou em Musicologia sob a direcção de Higino Anglès e prosseguiu os seus estudos de piano, cravo e clavicórdio com Joan Gibert Camins, ao mesmo tempo que frequentava vários cursos de Música Antiga em Paris e Berlim.

Em 1934, interessado no estudo da Música Antiga portuguesa, veio viver para Lisboa, onde acabou por se radicar até hoje.

Em 1947 foi nomeado professor do Conservatório Nacional de Lisboa, onde regeu, até 1984, o curso de Clavicórdio e Interpretação de Música Antiga e ensinou igualmente as disciplinas de Cravo, História da Música e Musicologia.

Tem feito parte de júris de exame em diversas instituições portuguesas e estrangeiras, designadamente no Conservatório de Paris, e actuado como examinador de teses de doutoramento em Musicologia para a Universidade de Melbourne (Austrália) e para a Universidade Nova de Lisboa.

Leccionou nas "Semanas de Música Antiga" que tiveram lugar em Coimbra (1978), Évora (1980) e Porto (1981), regeu em 1983 um curso sobre Música do Renascimento no Instituto Espanhol de Musicologia, de Barcelona, e nesse mesmo ano colaborou igualmente num curso de órgão organizado em Montblach (Mérida).

Realizou cursos e conferências nas Universidades de Bruxelas, Copenhaga, Aarthus, Barcelona, Madrid, Santiago de Compostela, Salamanca(integrado nas comemorações do quarto centenário da impressão da obra de Francisco Salinas), Paris, Toulouse, Amesterdão, Utrecht, Londres, Lisboa (Universidades Clássica e Nova), Coimbra, Porto, Estocolmo e Upsala, assim como nos Conservatórios de Friburg, Antuérpia, Madrid e Málaga.

Recebeu ainda convites para leccionar nas Universidades de Stanford (Califórnia), Athens (Georgia) e Pretória (África do Sul).

É desde 1947 colaborador permanente do Instituto Espanhol de Musicologia (Barcelona), organismo dependente do "Consejo Superior de Investigaciones Cientìficas" espanhol.

Por outro lado, é membro da Comissão de Musicologia da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1958, e nesta instituição tem exercido funções de consultor musicológico, além de ser responsável pela inventariação e catalogação das espécies musicais existentes no Arquivo de Música da Fábrica da Sé Patriarcal de Lisboa.

Tem colaborado também com várias instituições internacionais, como a UNESCO, o Centre National de la Recherche Scientifique (Paris), e o Répertoire International des Sources Musicales, entre outras.

No Ano Europeu da Música (1985) exerceu o cargo de Comissário da Exposição dedicada a Domenico Scarlatti.

Tendo desempenhado anteriormente as funções de conservador do Museu Instrumental do Conservatório Nacional de Lisboa, foi em 1976 convidado pelo Instituto Português do Património Cultural, para cuja alçada administrativa transitara entretanto o referido Museu, para seu colaborador científico e organológico.

Nesta qualidade foi responsável pela inventariação detalhada desta colecção, e teve uma intervenção decisiva na preparação de várias exposições temporárias de instrumentos nela integrados, designadamente da Exposição "Instrumentos Musicais 1747-1807: Uma colecção à Procura de um Museu" (Palácio Nacional de Queluz, 1984).

Ao longo da sua carreira, Macário Santiago Kastner apresentou inúmeras comunicações em congressos e colóquios musicológicos portugueses e internacionais, incluindo intervenções marcantes no celébre colóquio internacional sobre o tema "Le Baroque Musical", organizado em 1957 por Suzanne Clercx-Lejeune na Univerdade de Liége, que constituiu um importante salto qualitativo nos estudos modernos sobre periodização estilística na História da Música, e no "Primeiro Encontro de Música Instrumental Ibérica" (Saragoza,1977), que abriu uma nova fase no intercâmbio musicológico entre Portugal e Espanha.

A sua bibliografia inclui dezenas de artigos, estudos e edições modernas de Música Antiga, publicados na Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Itália, Portugal e EUA.

O seu trabalho de investigador tem incidido sobretudo sobre o domínio da Música ibérica para tecla e harpa nos séc. XVI a XVIII, área em que a sua autoridade é internacionalmente reconhecida, mas também sobre o repertório instrumental italiano, holandês, inglês e alemão do nosso período, bem como sobre diversos temas no domínio dos estudos organológicos.

Neste último âmbito tem-se dedicado, designadamente, aos problemas da reconstrução e revivificação da harpa cromática renascentista de duas ordens de cordas cruzadas.

Ultimamente tem vindo a abordar a problemática da tradição musical bizantina.

Como concertista de cravo e clavicórdio deu importantes e numerosos recitais na Alemanha, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Inglaterra, Islândia, Itália, Jugoslávia, Portugal e Suécia, actuando também nas principais estações de rádio e televisão destes países.

Dedicou-se sobretudo à revalorização do clavicórdio como instrumanto de concerto, mas interessou-se igualmente pelo repertório do Renascimento, Maneirismo e Barroco para instrumentos de sopro, o que o levou a fundar e dirigir durante e alguns anos o agrupamento de câmara "Menestréis de Lisboa", com o qual se apresentou regularmente em Portugal e no estrangeiro.

A obra ímpar de Macário Santiago Kastner em prol da Musicologia e da Música Antiga ibéricas tem sido frequentemente reconhecida em Portugal e Espanha através das mais variadas distinções.

Em 1965 foi eleito Académico Correspondente da Real Academía de Bellas Artes de San Fernando (Madrid).

Em 1984 a Cátedra "Francisco Salinas" da Universidade de Salamanca promoveu-lhe uma homenagem pelo conjunto da sua obra.

Nesse mesmo ano foi-lhe conferido pela Universidade de Coimbra o doutoramento "Honoris Causa", sendo seu patrono o reitor emérito da mesma universidade, Prof. Doutor Ferrer Correia, e foi agraciado pelo Presidente da República Portuguesa com o Grau de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Em 1988, a Secretaria de Estado da Cultura atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural por ocasião das Comemorações do Dia Mundial da Música.

Macário Santiago Kastner faleceu em Lisboa a 12 de Maio de 1992.

A 10 de Junho de 1992 foi-lhe concedida a título póstumo pelo Presidente da República Portuguesa a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique.

(notas do programa livro "LIVRO DE HOMENAGEM A MACARIO SANTIAGO KASTNER",FCG 1992)

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